O ROCK É PRETO

ANTES DE ELVIS: Rosetta Tharpe, a mãe do Rock and Roll desde 1940

Preta Referencia
Foi cantora, compositora e guitarrista. E assim se consagrou a Irmã Rosetta Tharpe em 1940 quando ganhou espaço na música graças a sua forma única de brincar com notas musicais tanto na voz quanto na guitarra elétrica. Ela cantava gospel com uma mistura de blues e country , composto que hoje em dia conhecemos como Rock.
Pioneira, fez história no século XX ao levar sua música irreverente para as casas noturnas, clubes quase sempre acompanhada por bandas, contrariando os costumes de uma dama para a época.

Sem Para
Durante a segunda guerra mundial nossa primogênita do rock foi uma das poucas artistas autorizadas a continuar gravando, seus sons eram enviados a tropas que se mantinham ao outro lado do oceano. Foi uma das poucas (se não a única) mulher preta que embalou o entretenimento de soldados, com sua voz majestosa.Seu estilo se popularizou no Mississípi, entre adolescentes da época, mas os pais reprovavam a música de preto. Acontece que, o estilo era dançante e contagiante demais e a unica solução foi embranquece-lo com personagens e vestimentas de agrado ao público com poder aquisitivo para consumir tv e rádio. Desta forma artistas como Elvis ganharam espaço dando um visual limpo ao ritmo criado por uma mulher retinta anos antes.

a mãe do rock

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Rodrigo e o BBB

Retinto, gordo e de dreads.
Vocês estão achando triste o que anda acontecendo como Rodrigo no BBB? Senta aqui, vou te contar uma novidade: É ASSIM NA VIDA! O que tem rolado nesta edição do Big Brother Brasil mostra como a sociedade transforma qualquer coisa num grande motivo para constranger e excluir preto.

Todos possuem o direito de errar, vacilar, ter problemas e etc, mas quando se trata de uma pessoa preta nossos erros/defeitos/problemas corporais/estéticos muitos rapidinho usam como argumento para exclusão. Suor, odor, cabelo natural, ronco, cicatrizes, pernas cinza por falta de hidratação, palavras ou termos que fogem da normal culta, vestimenta informal demais, formal demais, você pode escolher um desses motivos e perguntar ao seu colega preto se já virou piada por isso. Mas em seguida pergunte também ao seu colega branco.

Preto é acostumado com a solidão por falta de escolha (eu disse solidão e não solitude).
O BBB tem refletido a solidão do homem preto, que reflete na solidão da mulher pretas, que liga os dois à falta de autoestima, falta de confiança e é disso que eu venho falando diariamente por aqui, esse é um dos motivos que me levam ao choro calado e terapia.
Obs: Quando um médico branco ronca, ninguém faz esse mesmo alarde rs

Fogo nos racistas.

constrangedor (1)

Você é bonita.

Existe um enorme esforço para acreditar que sou uma mulher bonita e completa. Pós banho me olho no espelho, passo as mãos pelo rosto e corpo, tento amar tudo que vejo da forma mais sincera possível. Tem dias que levando os braços e através da sombra observo cada voltinha do corpo e questiono se os outros gostam do que eu vejo, se eles vêem o que eu vejo ali.

Depois da transição capilar e todo o empoderamento que essa melhora da consciência racial me trouxe eu continuo sentindo medo. Ecoa pelos meus ouvidos todo o discurso racista que ouvir durante a infância e adolescência, isso faz não me sentir bela, desejada ou significativa na vida das pessoas. Vivo questionado se falam que sou bonita da boca pra fora ou se realmente se espelham em mim, gostariam de se relacionar ou me veem como referencia.

Mulheres negras são bonita para sexo, entretenimento e zuera. No meio de tudo isso quem realmente quer estar aqui? Quem acha bonito o meu nariz e boca? Quem não sente vergonha de estar junto?

Os monstros continuam aqui, só mudaram a forma de atacar e mesmo ouvindo dos que me amam uma lista de qualidades, continua sendo difícil acreditar no meu potencial e beleza.

#EleNão

Ando com medo.
Os discursos de ódio tem me feito deixar de dar opinião dentro e fora da internet. As pessoas me atacam de graça, elas me xingam de coisas inimagináveis, aos olhos de quem não entende o que vem se passando no nosso país eu sou tirada como subversiva, “PTralha” louca, defensora de bandido, covarde sem força pra estudar. Eles dizem que me apoio nas cotas para ter uma vida mais fácil, me olham com nojo pela liberdade sexual e amor que vivo declarando ao meu corpo. Está difícil.

Toda vez que abro a boca para falar sobre o que acredito servir de progresso e saúde para minorias, toda vez que digo “o feminismo e o empoderamento salvaram a minha vida” surge um fã de Salnorabo para me depreciar. Queria entender porque o meu existir perturba tanto, qual o problema da minha pele, da minha liberdade, do meu trabalho, da militância, dos pelos, dos seios, dos desejos, da voz ativa, do amor. QUAL O PROBLEMA DE VOCÊS?

Eu choro, não consigo escrever mais.

mr catra

Mr Catra, ô papai se foi.

Preto, periférico e adotado.
Mr Catra foi cria do Morro do Borel (Tijuca/RJ), aluno do Colégio Pedro II, onde liderou o grupo estudantil e participou da reabertura do tão importante grêmio que entre altos e baixos se mantem sólido até hoje.
Na década de 80 ele criou o grupo musical O Beco, que tocava rock na pegada mais criativa possível e por meio do seu baixo conseguia mostrar muito do talento que futuramente conheceríamos melhor através do funk.
Catra também criou a RapSoulFunk, que além de gravadora, grife e organizadora de bailes funk também lidava com show e eventos fora do nicho.

Mr Catra tem OITO álbuns e participou de cinco filmes, ainda assim existe gente minimizando o artista em “o cara que tem 32 filhos”. Onde pretendemos chegar com a sexualização do homem negro? Quando vamos falar desse e de outros talentos? Quando a virilidade preta vai parar de ser destaque?

mr catra

Pai, não amo você.

Quando eu tinha 14 anos meu pai me deu uma (mais uma) surra daquelas. Era um de seus cotidianos momentos de euforia, raiva, drogas, bebida e machismo, – nada de novo numa periferia – mas aquele dia eu entendi que nossos familiares também erram muito.

O motivo dele me jogar controles de TV, ferro de passar roupa, dar socos, tapas e etc era banal: Queria me tornar uma dona de casa exemplar, dessas que dizem sim senhor para o marido e deixam comida pronta exatamente as 19h15 para que as 19h30 o homem da casa sente-se e alimente seu estomago e ego sem atrasos.

“Tomara que você encontre um homem que te bata muito” ele gritava enquanto chicoteava as minhas pernas. Entrei num estado de quase vegetação e quando recobrei o juízo (ainda apanhando) ficava me questionando o quão relevante seria para o meu futuro não questionar um homem.

Naquele momento a ausência e ao mesmo tempo muita presença de pensamentos resultaria na minha saúde, eu não deveria reagir. Fiz o contrário, e ele deslocou meu tornozelo alegando que eu era muito abusada por pergunta-lo o motivo de estar fazendo todas aquelas coisas comigo.

Essa atitude do meu progenitor se repediu até 08/16/2016 dois dias antes d’eu fazer 22 anos. Nesta data revidei, saí no soco com um homem negro, forte de 1,90cm. Disse a plenos pulmões “se continuar é melhor me matar, porque eu não vou mais permitir esse tipo de situação na minha vida”. Tranquei minha irmã em casa e no meio da rua discutimos, ele gritava, eu chorava até que pegou um tijolo e me acertou. Não sei de onde saíram forças pra me levantar mas eu só parei de me defender quando não me reconhecia mais, quando estava muito machucada (emocionalmente muito mais do que fisicamente). Jogada no chão aos prantos, as pessoas fingiam que não estavam vendo nada, ele foi embora, vaguei pelas ruas até dar a hora de minha irmã ter pego no sono para não me ver tão confusa, suja e desmoralizada.

Ninguém sabia disso, essas brigas eram rotineiras e eu sempre sorria pra ninguém do meu ciclo social perceber o furacão instalado dentro de mim.

Eu não tenho pai.

Bandido bom?

Em 2016 o destino ligou meus caminhos com os de um jovem envolvido com o tráfico. Ele dizia que sua unica forma de sobreviver e ter algum dinheiro era fazendo missão pelo morro e para o morro. Na vida aquele garoto tinha três certezas: O amor pela mãe, por Deus e pela sua periferia.

Filho de mãe solo, criado com o básico do básico numa casa de três cômodos que abrigava cinco pessoas mantidas por uma pensão destinada ao irmão menor de idade, ele vivia e se rebelava. Refletindo sobre isso me disse olhando para longe “Eu sou burro e tô fodido. Lá no morro pelo menos faço um dinheiro e da pra pagar o gás da minha mãe”. A vida daquele garoto de 19 anos fazendo plantão na entrada principal do morro valia um gás cheio para sua casa. Ao receber os R$60,00 depois de um plantão 12h por 24h começou a chorar e replicar seu ódio pelo sistema. “Quando fui procurar emprego as pessoas me olharam de cima a baixo, não deram valor para o meu currículo, debocharam da forma que eu falava. Na escola não aprendi nada, só dormia e faltava aula porque minha mãe não ficava no nosso pé”.

Em em meio as lágrimas contou como sentia vergonha por não ter terminado o ensino fundamental, a falta que fazia ter uma roupa arrumada e dinheiro para cortar o cabelo. Ele travava e destravava a glock, dizia que era sujo, queria se matar para acabar de vez com tudo aquilo. Contou quantos amigos perdeu pro tráfico e replicou novamente o ódio que sente pela política e principalmente pela polícia.

De quem é a culpa e o que podemos fazer por esses jovens?
bandido